Cristina Esteves: "As mulheres não precisam de favores"

Ela é hoje o único rosto feminino na apresentação do <em>Telejornal</em> e admite que é um desafio merecido. Recorda os tempos em que era apresentadora, na década de 1990, e revela os sacrifícios que tem feito por causa dos cortes no ordenado e o fim dos subsídios.
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Recentemente começou a apresentar o Telejornal. Sente que já merecia este desafio?

Merecemos o que conquistamos legitimamente. Já o tinha apresentado no verão passado e voltei agora a apresentá-lo interinamente. Quanto ao resto, o tempo dirá.

Qual o feedback que tem recebido do diretor de Informação Nuno Santos?

O apoio da direção de Informação, nas pessoas de Nuno Santos e Vítor Gonçalves, tem sido extremamente motivador, mas proporcional à exigência. Feitas as contas, só lhes posso estar grata, assim como aos colegas que me têm apoiado e incentivado.

O facto de ser o único rosto feminino no Telejornal deixa-a orgulhosa ou, por outro lado, entristece-a porque gostaria que mais mulheres estivessem neste espaço?

Abomino que, nos tempos que correm, as coisas ainda tenham de se pôr mais ou menos nesses termos, mas é uma realidade, é incontornável. Não acredito em quotas, mas em competência e as mulheres não precisam de favores, apenas de igualdade de tratamento e oportunidades e, pelo passado, bem sei o que isso é. Mas o inverso também é condenável, escolher uma mulher apenas para se ficar bem na fotografia. Não necessitamos desse tipo de deferências. Mas, obviamente, estou orgulhosa e ciente da responsabilidade.

O Telejornal tem sido, de resto, um dos programas mais prejudicados com o novo sistema de medições de audiências da GfK. O que acha destes novos resultados?

Todo este novo processo de audimetria tem estado envolto em polémica e suspeição desde o início, mesmo antes de haver resultados oficiais.

Acha que a marca RTP está a sair fragilizada deste processo?

Não é a RTP que está a sair fragilizada deste processo, mas sim todo o panorama televisivo nacional. A RTP, sim, sente-se prejudicada, mas a administração e direção de Informação e programação já tornaram claras a nossa posição, pelo que urge concluir a auditoria em curso e tirar as devidas ilações no sentido da credibilização inequívoca e estabilidade de todo o espetro audimétrico televisivo. Neste imbróglio só há perdedores, mesmo os que no momento se possam sentir confortados pelos resultados. Mas uma coisa é incontornável, este processo teve o condão de nos unir internamente, de nos motivar ainda mais para mais e melhor fazer.

Outro dos temas quentes remonta à alienação de uma das antenas da RTP. Está preocupada com o futuro?

Estou preocupada com o futuro, mas não só da RTP. O futuro da RTP está nas mãos do acionista Estado, do poder político e, consequentemente, dos portugueses, mas também dos seus colaboradores, são eles que, em última instância, fazem, são a RTP.

Que sentimento se vive na RTP? Ansiedade, medo, expectativa?

De tudo um pouco, os sentimentos são os mais variados e inseparáveis entre si até pela indefinição e morosidade de todo o processo. Mas o que é de ressalvar é o profissionalismo, a dedicação, o sentido de missão e superação dos profissionais da RTP para oferecer aos portugueses espalhados pelo mundo um jornalismo de confiança e uma programação de qualidade.

"A RTP não pode estar constantemente mergulhada na indefinição"

Acha que o processo está a ser bem gerido?

Não é uma questão de ser bem ou mal gerido, é, antes, uma questão de opções e procedimentos. Preferiria um em que previamente se avaliasse e debatesse, da forma mais abrangente possível e despida de preconceitos e interesses particulares ou de conjuntura, o serviço público televisivo e radiofónico e o papel do Estado na comunicação social para o presente e futuro e, consequentemente, se tomassem as decisões em conformidade, sejam elas quais forem, inclusive na dotação de todos os meios necessários à sua prossecução. A RTP, o serviço público não pode estar constantemente mergulhado na indefinição, quase ao sabor do vento, tem também de ser à sua maneira um desígnio nacional, um fator de identidade.

À semelhança da função pública, também sofreu cortes no salário e nos subsídios?

Sabendo que o país se encontra numa situação crítica, era preferível que os esforços tivessem sido repartidos por todos, de forma mais equitativa, independentemente do vínculo laboral, até para não ser fator de divisão... Mas sim, à semelhança dos funcionários do Estado e pensionistas, sofri um corte de 5% no salário e fiquei com os subsídios de férias e de Natal suspensos.

Como é que se gere um orçamento familiar com menos dinheiro?

À semelhança dos portugueses em situação análoga, corta-se no supérfluo e é-se rigoroso no demais.

Que sacrifícios tem vindo a fazer para colmatar os cortes de que foi alvo?

Uma coisa é certa, não descuro no que é essencial, a alimentação, a educação e a saúde dos meus. Mas no resto, nos pequenos e grandes prazeres acessórios ou complementares, não é um sacrifício, é uma necessidade, uma inevitabilidade que não me desvia do essencial. Foi e é uma alteração de mentalidade, custa mais aos mais pequenos...

Já recebeu algum convite por parte de outra estação?

É normal haver convites ou sermos sondados, quer dentro quer fora do meio. Como tudo na vida, é uma questão de gestão de oportunidades, de opções, de interesses mútuos e individuais.

É licenciada em Direito. O curso ajudou-a a ser melhor jornalista/comunicadora?

Os vetores jornalismo e comunicação tocam-se, mas não correm necessariamente em paralelo. A capacidade de comunicação intrínseca trabalha-se, mas é na sua essência um fator natural, digamos, um independentemente do curso ou formação de cada um. Ser licenciada em Direito, no meu caso específico com especialização em jurídico-económicas, permitiu-me, até pela sua amplitude e abrangência a todos os ramos da vida, adquirir conhecimentos mais amplos e profundos de todo o meio envolvente, inclusive numa ótica comunicacional.

"Entrei na RTP através de um anúncio de uma revista"

Começou a trabalhar na RTP na qualidade de apresentadora. Como surgiu essa oportunidade?

Por resposta a anúncio numa revista para um concurso público. Hoje estou grata à minha mãe por a ter comprado e ao meu namorado de então, hoje marido, por ter feito o CV quase à minha revelia e o ter enviado por correio azul precisamente no último dia útil.

Que recordações guarda desse tempo?

Muitas. Conheci pessoas fantásticas, trabalhei com profissionais qualificadíssimos, conheci parte do nosso Portugal profundo e aprendi muito, muito mesmo. A lidar com esse monstro que é a câmara, a trabalhar sem rede, a fazer televisão... Ganhei o bichinho, foi a minha antecâmara para o jornalismo televisivo.

Gostava de voltar a ser apresentadora?

Teve o seu tempo.

Foi em 1996 que enveredou pela área do jornalismo. Porquê?

Por essa altura optei por tomar uma decisão de carreira em coerência com as minhas expectativas intelectuais e académicas, em detrimento do retorno financeiro e exposição mediática.

Alguma vez se arrependeu de ter escolhido esta área? Se não fosse jornalista, o que seria?

Não, foi uma decisão em coerência e refletida. Já tive os meus momentos, mas nunca me arrependi. Apresentadora ou advogada, mas provavelmente advogada.

Qual é a sua grande referência na área do jornalismo?

Oh! Tantos que é difícil destacar um, até pela injustiça. Qualquer um que o faça descomprometido, com rigor e sentido de missão é uma referência, e há tantos que dão uma vida, até mesmo a vida, pelo direito de bem informar. Muitas vezes aprendemos mais com o mais ou menos anónimo que nos está próximo do que com uma outra figura mediática que nos é distante.

Quando percebeu que queria fazer do jornalismo a sua vida?

A brincar, a brincar desde a infância, mas era um sonho. A sério, quando já era apresentadora e estava a concluir o curso superior.

Lembro-me de ter lido uma história deliciosa sobre si numa entrevista. Quando era criança via o Telejornal, debates e colocava um copo de água à frente do seu pai. Foi assim o início do encantamento por esta profissão?

Olhando para trás, acho fantástico que os meus pais tivessem a paciência para participar no que lhes pedia. O copo de água era um acessório, mas as perguntas já não eram. Gostava realmente de assistir a alguns programas de informação, ficava fascinada não só por se contar histórias, mas pelas inúmeras questões que se colocavam para as conseguir contar. Era o como, onde e porquê...

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